Mikhail Mikhailovich Bakhtin

Introdução 

Mikhail Mikhailovich Bakhtin foi um pensador russo que nasceu em 1895 em uma cidade provincial chamada Orel, e que morreu em 1975, na capital da Rússia, Moscou. Vemos uma relação muito próxima entre a vida e a obra desse pensador, porém nessa biografia não vou detalhar as diversas áreas do conhecimentos que o teórico russo estudou.

Estamos conscientes da dificuldade da apresentação de um pensador como Bakhtin, pois há uma densa penumbra que se sobrepõe diante da maioria das fases da sua vida, fases, as quais seus principais biógrafos não conseguiram alcançar. E, além disso, a contradição, a incompletude e a pluralidade são as principais características destacadas pelo pensador e que também estão presentes em sua própria vida, o que dificulta ainda mais, a já árdua tarefa. 

Esses fatos fizeram com que a maioria dos estudiosos de Bakhtin, o apresentassem polarizando apenas uma de suas fases ou características de modo a suprimir o restante de seu pensamento, realizando a criação de muitos “Bakhtins‟ distintos. Contudo, apesar das dificuldades, aqui iremos apresentá-lo em sua incompletude e ambivalência, destacando sua característica que foi totalmente omitida pelos estúdios de Bakhtin no Brasil, a religião. Assim, nos próximos parágrafos resumiremos sua biografia escrita por Katerina Clarck e Michael Holquist (2004), permeando com nossos comentários e destacando a relação entre a teoria e a vida de Bakhtin.

1. A relação entre vida e pensamento de Mikhail M. Bakhtin 

Bakhtin pertencia a uma família nobre que valorizava muito a educação, por isso, desde criança, ele e seu irmão Nikolai receberam a melhor educação possível, sendo introduzidos na cultura européia.

Nove anos após seu nascimento, a família Bakhtin se mudou para Vilno, capital da Lituânia, sete anos depois, Bakhtin se mudou para Odessa, para onde sua família havia partido a dois anos atrás. Essas duas cidades tiveram particular importância no desenvolvimento do pensamento de Bakhtin, pois, em Vilno se destacava uma confusão de diferentes línguas, sobretudo poloneses, russos, judeus além dos próprios lituânios, os quais, falavam cada um sua própria língua e cultivavam cada um sua própria cultura, fatos que parecem se relacionar diretamente com o conceito de “heteroglossia” e da “pré-história do gênero novelístico”, que futuramente ele desenvolveria. Odessa diferentemente de Vilno, não se voltava para a cultura ocidental, mas era um elo entre Europa meridional e a Rússia Czarista, as tavernas, o ambiente propicio para a bandidagem e o ar de bom humor das ruas seria sugestivo para seu futuro conceito de carnavalização. 

Foi nessa mesma cidade onde Bakhtin iniciou sua vida acadêmica, em 1913, mas deixou o curso superior um ano após, para reiniciá-lo em Petrogrado, onde matriculou-se no curso de estudos clássicos da Faculdade Filológico-Histórica. Seu período de universitário foi particularmente importante por que foi então que ele começou a se envolver em círculos intelectuais, os quais seriam determinantes para ele para o resto de sua vida e importantíssimo para toda sua teoria, pois em círculos de discussões intelectuais, nunca se fala em voz unívoca, mas sempre plural e sempre um enunciado é dado em resposta a outro, como no seu conceito de dialogismo.

Além de começar a se envolver nos círculos de discussão acadêmica, outro evento determinante nessa fase da vida de Bakhtin foi sua relação com o pensamento de Kiekgaard e com a teologia especulativa, que lhe atraiu durante um breve período de tempo. Mas, mais importante foi a influência de seu professor universitário Fadei F. Zielinsk que era um dos principais expoentes da onda do “Helenismo do Terceiro Renascimento”, onde se pretendia um retorno radical aos estudos helenísticos, mas também via-se no helenismo uma filosofia de vida contemporânea, muito relacionada com a religiosidade russa que opunha Roma - catolicismo a Grécia - ortodoxia russa. 

Sua formatura ocorreu em 1918, período das muitas guerras civis e revoluções russas, além de ser o ano em que se acabava a grande guerra, e uma calamidade intensa se estendia por todo território russo, além do inverno histórico ocorrido em meados desse período. Esses eventos prejudicaram muito Bakhtin que não era homem engajado, nem prático, priorizava aspectos da interioridade, tampouco lhe agradava o marxismo vulgar pós-revolução russa. Assim Bakhtin, foi levado a se mudar para Nevel, cidade de 13000 habitantes, que fora sucessivamente, território da Polônia, Lituânia e desde 1772 da Rússia.e se constituía uma cidade essencialmente judaica. Nessa cidade Bakhtin foi professor de uma escola secundária e mais importante, se envolveu com um circulo de intelectuais de alto nível, que se tornaria famoso para a posteridade, apesar da provincialidade da cidade e de sua fraca repercussão durante sua contemporaneidade. Apesar de Bakhtin ter se envolvido em vários círculos de diferentes interesses de discussão ao longo de sua vida, esse de Nevel, se destaca por ser único que temos mais conhecimento – apesar de mesmo assim serem escassas as informações – e também se destaca pela importância particular que teve no restante da vida e obra de Bakhtin, a sua continuidade, apesar da mudança de cidade.

O Circulo de Nevel, se constituiu de reuniões de intelectuais de distintas áreas do conhecimento, cujos encontros pretendiam dialogar para a obtenção de intercambio intelectual entre as diferentes disciplinas, porém se sabe pouco dessas reuniões apesar de sabermos de duas de suas ambições: em primeiro lugar tinham o projeto de “ilustração das massas” (2004, p. 70) e em segundo “alimentavam a idéia da criação de uma Escola de Filosofia de Nevel” (idem. p. 65). Ambos projetos foram frustrados, embora o primeiro tenha sido posto em prática em alguns momentos. O fim do circulo de Nevel ocorreria em três anos, a saber, 1921. José Luiz Fiorin citando Carlos Alberto Faraco (2009, p.16) fala de dois projetos teóricos: “construir uma prima philosophia e uma teoria marxista da superestrutura” (2006, p.16).

Nesse circulo se encontravam figuras como o bacteriologista Koliubakin, o engenheiro Zinovievitch Ruguevitch; Valentin Voloshinov que apesar de ter estudado direito por pouco tempo, se interessava por música – sobretudo piano –, poesia e filosofia; o maçon e místico Boris M. Zubákin; Vasiliévitch Pumpiânski, que apesar de não ter nenhuma formação superior tinha um vasto conhecimento multidisciplinar; Maria V. Iudina, concertista de piano e engajada em trabalhos relacionados com a revolução; e Matvei I. Kagan, a mais resplandecente figura do circulo, que se destacava por ter estudado filosofia na Alemanha, onde conheceu o neokantianismo diretamente de seus primeiros proponente, mas também se destacava devido ao fato de ser mais velho que os demais membros e por suas experiências de trabalho e de suas publicações, principalmente na área de filosofia.

Gradativamente esse circulo deixava de existir por que seus membros estavam se mudando para a cidade de Vitebsk, e em algum momento Vitebsk foi como uma segunda sede do mesmo circulo, mas, em 1921 quando o circulo de Nevel deixou de existir, Vitebsk o substituiu apesar de entrada de novos membros e saída de antigos. Após Vitebsk o circulo foi para Leningrado, cada vez mais o escopo de interesses do circulo aumentava tremendamente. A existência desses círculos de acadêmicos que discutiam múltiplas questões fundamentava o principal conceito de Bakhtin, o dialogismo. Pois nesse circulo ninguém era proprietário de nenhuma das idéias que circulavam, todas elas eram frutos de diálogo, portanto tinham uma gênese comunitária. Talvez esteja relacionado com esse fato a intrigante questão das obras dos membros do circulo que tem sua autoria questionada.

Essa problemática se dá devido ao fato de três livros: Marxismo e Filosofia da linguagem (2010), Freudismo (2009) e O método formal nos estudo literário (1994), e também o artigo Discurso na vida e discurso na arte, dentre vários outros artigos, serem atribuídos aos nomes de membros do circulo, mas que com o passar do tempo surgiu a desconfiança de que fossem escritos por Bakhtin que por motivos pragmáticos preferiu deixar que seus colegas assumissem a autoria. Existem argumentos que defendem a autoria bakhtiniana, como os apresentados por Mariana Yaguello na introdução de Marxismo e Filosofia da linguagem (2010, pp.11-19) e existem também argumentos que refutam essa afirmativa apresentando uma diferença significativa entre os livros de autoria autentica e inautêntica, como a de Carlos Alberto Faraco (2009, pp.99-157). Porém, parece-nos mais interessante entender esse conflito como algo que põe na prática as teorias de Bakhtin, pois nesses textos vemos várias vozes em diálogo e interdependência, não importa de quem era a caneta que o pôs no papel, suas teorias reivindicam as ideias do circulo. 

As reuniões cessariam com o crescimento da repressão por parte do governo russo aos movimentos suspeitos. Embora a obra dos membros do grupo, em geral, não suscitasse desconfiança, Bakhtin foi condenado ao exílio por envolvimento em grupos de discussão suspeitos, como era o caso de três grupos de discussão de filosofia da religião que ele possivelmente se envolvera, os quais são Volfila, Irmandade de São Serafim e Voskresenie. Ao ser exilado em 1930, Bakhtin é acusado de corromper os jovens, e não pelo que ele escreveu. 

Apesar da condenação de Bakhtin estar relacionada com questões religiosas, os estudiosos de Bakhtin no Brasil pouco falam a esse respeito, talvez, por que a despeito do apreço que Bakhtin goza na academia brasileira, a religião continua sendo considerada por boa parte da academia brasileira como um estudo relacionado a interesses de épocas passadas, que não interessam para as instituições laicas. Dessa forma dentre quatro livros organizados por Beth Brait sobre os conceito de Bakhtin (2008 A) (2008 B), (2009), (2010), e nas breves introduções ao pensamento bakhtiniano de Carlos Alberto Faraco (2009) e José Luiz Fiorin (2006), nada consta que esteja relacionado com religião, apesar de sua alta importância na teoria bakhtinianas. Em contrapartida, Katerina Clarck e Michael Holquist destacam a religiosidade de Bakhtin que o levava a ser chamado por seus companheiros de “homem da igreja”. A pesar de saber que sua teologia não era de seminário, mas sim da sofisticada intelligentsia (2004, p.146).

A referida inteligentsia era um sentimento que pairava sobre os intelectuais russos contemporâneos ao circulo de Bakhtin, que se baseava em relacionar a teologia com diferentes disciplinas, sobretudo, as ciências exatas, idéia que tinha suas raízes no idealismo alemão, relacionado principalmente com Fichte e Schelling, o que prova que os movimentos nos quais Bakhtin estava envolvido não somente não viam oposição entre religião e ciência, ou religião e revolução, como pelo contrário, tinham a religião em altíssima estima. Maior símbolo da intelligentsia foi o padre Paviel A. Florêski, que era físico, matemático, inventor, filosofo, historiador, arqueólogo, teólogo, filólogo e historiador da arte, dentre outras atividades não classificáveis.

Bakhtin amargou quinze anos no exílio, de 1930 a 1945, peregrinando pelas cidades de Kustanai do Cazaquistão, onde se submeteu a função como professor de contabilidade de criadores de porcos; Saransk na Mordovia, onde lecionou no Instituto Pedagógico da Mordóvia – lá ele foi considerado um departamento de literatura de um homem só; e Savelovo, onde foi professor de alemão e escreveu prolixamente, vivendo a custa de favores de amigos, até ser restituído a Saransk. Contudo, o exílio foi proveitoso, no que diz respeito a sua produção bibliográfica, duas de suas obras foram produzidas nesse período: Cultura popular na idade Média e no Renascimento no contexto de François Rabelais (2010) e alguns textos sobre teoria do romance que seriam reunidos e editados sobre o título Questões de Literatura e de Estética (2010).

Novamente em Saransk Bakhtin obteria um status lentamente crescente até sua aposentadoria em 1960, pois ali, tornara-se chefe do Departamento de Literatura Geral. Após sua aposentadoria ele se dedicaria a escrever, porém nenhum de seus textos desse período chegou ao termino. Alcançou popularidade dentre os alunos, e seu livro Problema da poética de Dostoievski atraiu discípulos, mesmo quando sua atividade acadêmica havia cessado oficialmente. Seus seguidores lutaram – e triunfaram – para que seus textos fossem editados e que seu nome se tornasse mais popular, inclusive internacionalmente, porém, a essa altura Bakhtin e sua esposa Elena, já estavam debilitados demais, o que lhes restou foi o fim da vida em estado de grave enfermidade passando em asilos em Moscou e gastando o dinheiro que passava a receber com os direitos autorais com o cuidado de sua saúde, até sua morte em 1975.  

Esta foi a apresentação da vida de Bakhtin tentando relacioná-la com o desenvolvimento de suas teorias, não que imaginemos que haja uma necessidade intrínseca entre teoria e práxis, mas apenas apontando que os conceitos, por mais teóricos que sejam, encontram-se ancorados na vida e na existência, mesmo que nem sempre estejam a disposição de utilitarismo pragmáticos, mas temos que salientar que um dos eixos de seu pensamento era a luta contra o teoreticismo (FARACO, 2009, p. 16).

Revista do Programa de Pós-Graduação em Letras e Ciências Humanas – UNIGRANRIO

Francisco Benedito Leite



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