Filosofia: A bondade e virtude para os gregos

Filosofia: A bondade e virtude para os gregos

Na história do que foi a criação do mundo, para os gregos, o universo foi certa vez um lugar caótico, onde nada tinha lugar, depois passou a ser governado completamente por apenas um ser: Cronos, e depois disso, com uma batalha heroica, Zeus com apoio de seus novos deuses tomou o controle do universo, e em vez de seguir o exemplo de seu pai, decidiu dividir o poder. Cada deus tinha seu lugar, cada um governava em uma essência da vida, uns sobre os mares, outro sobre as guerras, outra sobre o conhecimento etc... Esse é o mito de criação do mundo, para os gregos: A ordem estabelecida por meio de cada um em seu devido lugar.

É importantíssimo entender essa mentalidade dos gregos, por que ela governa todas as partes da sua cultura.

Para os gregos, o universo era, graças a Zeus, uma máquina perfeita, precisa como um gigantesco relógio suíço. Cada ser vivo, cada força da natureza, cada folha seca de árvore tinha o seu lugar no universo, respeitando a paz e harmonia das coisas. E tudo o que existe faz exatamente que foi feito para fazer, desde os ventos que empurram as ondas do mar, até as águias que caçam serpentes. Mas os homens são diferentes, nesse ponto de vista. Os homens tem inteligência, eles não são como os animais que não sabem o que fazem.

Os homens decidem o que fazem, agem as vezes por ganância, por medo, por estratégia, por pena, generosidade. Então os homens podem, diferente dos animais, se guiar para um lugar no universo ao qual não pertencem.

Assim como um bom olho é aquele que enxerga bem, e não aquele que tenta também ouvir ou sentir cheiro, o bom médico é aquele que cura, o bom marinheiro é aquele que guia o navio e a tripulação, o bom soldado é aquele que luta bem, e assim por diante. Ou seja, para os gregos, o bom homem é aquele que está no lugar que o universo reservou para você, que está em harmonia com o resto do seu universo.

A harmonia é incrivelmente importante para eles. Aqui o verdadeiro vilão é o agente da desordem, o que destrói a ordem, o que cria o caos. A própria beleza era, as vezes, um termo moral.

Os gregos não tinham personificação do demônio ou de um vilão, mas tinham deuses que representavam o Caos, como Pam, por exemplo, que era representado como uma entidade feia. A representação de um ser feio favorecia a compreensão visual da ideia de erro, de desordem. Talvez fosse até uma assimilação inconsciente, mas ocorria. E agora você sabe por que as esculturas gregas tinham de ser tão perfeitas, não era apenas um apelo visual, mas representar deus em sua imagem mais formosa e perfeita era uma exaltação ao seu caráter harmônico.

Talvez por isso os gregos fossem conhecidos como muito belos, por que rejeitavam a feiura de forma moral, e dificultavam que se procriasse.

Assim, mesmo que você fosse uma pessoa boa e generosa, e nem necessariamente feia, mas não estivesse fazendo aquilo que o universo te criou para fazer, você não só vai ser uma pessoa triste e miserável, como vai ser uma pessoa sem virtude, e vai atravancar o funcionamento harmônico do universo. Por que se você está fora de lugar, está no lugar que foi feito para outra pessoa, e essa pessoa também está na mesma, e assim por diante.

Repare que na ideia dos gregos, não são as intenções do seu coralão que determinam a sua virtude, mas a sua competência em fazer aquilo para o que nasceu.

E eu sei que você deve estar comparando essa visão de moralidade com a visão atual que requer amor, compreensão, sinceridade, altruísmo e generosidade, conforme os valores morais do Cristianismo e das religiões que dele vieram, e pensando que os gregos não eram precisos em saber o que é bondade, mas eu quero que julgue essa mentalidade por meio do objetivo principal dos gregos, que era viver em paz na terra, se desenvolver, aproveitar a vida ao máximo.

As religiões cristãs diferenciam-se muito dessa visão, por que elas tem como alvo uma vida fora da terra, um outro lugar para onde você poderia ir, dependendo do merecimento do seu coração, das suas intenções. O Cristianismo deixa claro que dificilmente você será feliz nesse mundo. Ao longo da idade média, a felicidade da população não era nem mesmo moralmente bem vista.

Interessante isso, não é? Pensar que nós precisamos buscar a bondade de coração, a generosidade e o amor, e também buscar a felicidade, ainda que nos fundamentos da nossa moral, tecnicamente, um exclua o outro?

Agora é a sua vez de refletir, você acha que é possível ser feliz e ser bondoso ao mesmo tempo?

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